Uma herança quase visível


Ele não conhecia o seu pai para além de fotografias. Por causa do convívio com Bartolomeu, Leônidas se retraiu, retirando as imagens de seu pai de seu alcance, o que intensificava o estigma e a falta de coragem. Por onde fosse, cegava-se a intuição, estava vulnerável ao equívoco. Porventura, desde aquele término de tarde, em que fora atirado no asfalto, adquiriu a sensação de que seu pai desaprovaria suas escolhas, por isso evitou pensar nele, apesar de saber que ele se mantivera a seu lado com um severo olhar.
Ele nunca escutou histórias que dessem forma àquilo que seu pai foi. Nunca lhe foi negado o que lhe aconteceu, ele morreu num acidente de carro, durante uma viagem noturna, após uma partida a que assistiu no estádio da capital. Sua mãe estava grávida na época. Ele não pôde conhecer o outro lado da família, porque o impulso de Rachel foi fugir o mais rápido que pôde, na condição de que eles eram contra o estabelecimento daquela união.
Leônidas sabia que o seu pai tinha uma irmã, e que ela era mãe de dois meninos com idade inferior a ele. Seus avós moravam numa casa modesta, numa pequena cidade, mas eles nunca lhe foram apresentados. Ouvira dizer que o comportamento rude da família não se alterou, apesar da dor da perda, já que a existência dele era o legado, a herança que o homem pôde deixar.
Eles não eram tão ricos quanto acreditavam ser. O pai de seu pai trabalhava num escritório, enquanto a mãe era dona de casa. Apesar de ele ser o babaca da família, era também a alegria da casa, pelo seu comportamento irreverente. Ele investiu para conquistar a mulher mais linda que encontrou em toda a sua vida. Ele não pôde resistir à bela mulher de cabelos loiros sentada na primeira carteira. Ela dizia estar ocupada demais com os estudos, encontrando desculpas para escapar do rapaz que era o capitão da liga de futebol.
Os músculos dele não lhe causavam nenhum fascínio. As piadas, a princípio, não rendiam mais do que um sorriso amarelo, pois tudo que Rachel pensava era em ter um futuro diferente se comparado à sua mãe, que havia se perdido, ou a seu pai, que desaparecera fazia alguns anos.
Ela foi adotada pela irmã de sua mãe, que por compaixão concedera o afeto que lhe faltara. Portanto, rapazes com a vida resolvida não eram capazes de entender o desespero de ter que cuidar do próprio futuro. Ele precisou se reinventar para poder se aproximar dela, porque entendeu que não conseguiria alterar aquilo que Rachel escolheu para ela. Ele não se importava com isso, estudava por horas, para se fazer merecedor de permanecer ao lado dela.
Ela não contou a ele a respeito de seu passado, porém, em algum momento, ele desconfiou que nada era típico. Ele respeitou isso em silêncio. Não lhe era esperado que um garoto tão estúpido também fosse tão sensível. Ele, no entanto, soube a abraçar como nenhum outro fez. Havia se apaixonado pelo rapaz pelo qual, a princípio, não estava nem um pouco interessada. O pensamento sobrevoava nele o tempo inteiro. Em contraposição à dureza das circunstâncias, sentiu como se a vida estivesse lhe dando uma compensação, porque acreditou que, daquele momento em diante, tudo ficaria bem.
Engraçado como tais casos que escutara permaneciam nítidos em sua mente, como se a lente de seus olhos pudesse enxergar o que aconteceu como um filme de cinema. Ele havia se esquecido do quanto gostava de ouvir aquela história, pois, quando Rachel a contava, era como se a intensidade dos sentimentos fosse reanimada na própria pele. Enxergava nesses momentos um brilho que não era tingido comumente. Ele deveria buscar por aquilo dentro de sua própria existência. Esquecera-se dessa perturbação contagiante, que a tudo tirava do lugar. Precisava bater a poeira das velhas convenções. Leônidas se divertia com aquilo, com um traço de sorriso que era desenhado em seu rosto. Seu pai sempre foi audacioso, o aspecto receoso foi herdado de sua mãe.
Ele não enxergou na gravidez um problema a ser solucionado. Pelo contrário, torcia que fosse um garoto, para poder levar consigo aos estádios. Toda maturidade que lhe faltava foi acrescida, tolhido pelas circunstâncias. Por nunca ter se interessado em adquirir um emprego, não interpretava como um problema ter que dividir o tempo estudando e trabalhando. Ele apenas queria que o lar fosse confortável para consolidar a união. Para ele, não importava o que seus pais pensavam ou se o dinheiro seria pouco, porque encontrou tudo que queria ter ao seu lado.
A pancada foi violenta o suficiente para que a vida dele fosse perdida de imediato. Ele estava no volante naquela noite, ao lado de um dos seus melhores amigos. Ele tentou desviar o carro, mas não havia espaço na pista para evitar o transtorno. O homem que dirigia o outro veículo dormiu sobre o volante.
Leônidas se perguntava como seria a sua vida se seu pai tivesse sobrevivido ao acidente. Ouvir a voz de seu pai, sentir os braços dele enlaçados nos seus… Era esse o seu maior sonho. Ele teve um grande herói sem poder ter a oportunidade de contar a ele a respeito disso. E, apesar de saber que suas lágrimas não eram apenas suas, que ele em algum lugar estaria torcendo por si, a dor da ilusão dessa realidade era pertinente. Queria que as respostas estivessem facilmente a seu alcance.
Ter imposto o esquecimento do próprio pai, na ousadia de ocupar um espaço que não deveria lhe pertencer, foi uma das coisas mais cruéis que Bartolomeu poderia ter feito. Não era apenas revolta que comportava em seus olhos, mas um descontentamento que tinha sede de ser transformado em ação. Seus esforços seriam incansáveis.
Ainda que descobrisse algo de Phillipe que o fizesse duvidar da integridade dele, seu pai seria mais autêntico, sem recorrer à proposta de ter que alterar quem era para se comportar na norma social. Ele apoiaria as suas decisões, mas também saberia corrigir seus comportamentos, conduzindo-o para encontrar a melhor versão de si.
Leônidas implorava silenciosamente por um sinal, algo que lhe desse a certeza do que fazer. Ele ansiava por mudança. Algo, qualquer milagre que pudesse alterar o estado das coisas, como naquela vez que, por sorte, repentinamente o prêmio da loteria embaralhou todas as perspectivas. Deus conduzia os seres como marionetes, conforme o seu próprio desejo. Ele poderia transformar o estado de todas as coisas, caso assim quisesse. Mas talvez a lágrima que escorreu em seu rosto não fosse suficiente para convencê-lo.