Um lugar sombrio


Perdera-se outra vez na incessante procura. As palavras adentravam em si como navalhas, de forma a perfurar o corpo. Ninguém esperava por si, ainda não encontrara o significado da sua existência. Eram frágeis as forças. Braços entrecruzados, cabisbaixo, sem saber diferenciar se o que lhe fazia mal era o excesso ou a falta de pensamentos. Queimava em seu corpo a febre, o calafrio.
Abaixo dos pés, grama úmida; acima da cabeça, mariposas voavam em elipses. Se ao menos soubesse como crescera esse desespero, quiçá ao menos tivesse um caminho a retornar. Mas o caminho seria feito de espinhos. Ardera no peito a ferida, a toda escolha havia de se machucar. Tal como a bússola a ordenar as suas ações, na qualidade em que os instintos sobrepujavam a lógica, era preciso que ao menos o deixassem em paz em suas imperfeições. Destituído da humanidade, ao término, ninguém poderia causar dano maior uma vez desistido de si. Quando o corpo como uma folha seca estivesse, seu espírito estaria livre entre campos verdejantes, tomando de volta as coisas que lhe pertenciam. Aquela terra maldita resignava-o à escassez, lágrimas de solidão e sofrimento a escorrer. Caso corresse, jamais seria alcançado. Seus pés teriam asas, os limites seriam pequenos perante a sua vontade de fuga.
Mas era mortal e falho, enfraquecido, numa noite fria, incapaz de sustentar as suas próprias proposições; pois havia decidido que seria aquele o seu último dia, e agora era incapaz de se mover. Precisava estudar essa covardia que o impedia de tornar o ato. Dentro do labirinto onde se enclausurou, existia seu espírito, implorando para explodir toda a potencialidade afora, uma força incalculável, ávida pelo sol, pelos ventos, pela liberdade, tanto quanto o lugar ao qual sentia que pertencia. Ainda não aprendera a ser a fênix, cujas cinzas são o princípio do renascimento. Desvanecia primeiro no próprio corpo. Sabia que, mesmo permanecendo fisicamente presente, a vida já perdera o significado: seria apenas uma casca vazia de virtude e resiliência.
Não o viu se aproximar. Nem sequer o escutou chegar perto; mas ele sempre estivera consigo em recordação; e sabia que em algum momento ele estaria por si. Antes das cruéis proposições, no instante em que as forças haviam se desvanecido, Ulisses sentara-se a seu lado, e o peso das lágrimas se fez mais persistente.
Lastimava-se por testemunhar sua fragilidade, logo o homem a quem fez questão de ferir os sentimentos. Era como um silencioso tapa em sua face a humildade de ter estendido apoio, indiferente aos equívocos que cometeu, como se enxergasse o que de perfeito havia em si, aquilo que ainda nem era capaz de ver. Se fora conduzido até ali, é que uma dor afincara seu peito a não ter paz enquanto não o encontrasse. Porque seus corações, misteriosamente, não estavam desassociados, e seu interior doía por vê-lo naquele deplorável estado.
Em segredo, sabia que, enquanto fosse incapaz de guiar suas próprias condutas, estaria condenado a deixar-se guiar por outro, como se precisasse sempre ter alguém por perto a governar as suas ações, a separar o certo do falho, a transcender as ambições vis e instantâneas pelo benefício durável. Precisava reconhecer, carecia de ajuda até para poder vencer a si próprio, convencido da imaturidade. A diferente modo, o outro não desistira, nem por descuido, nem sequer por um centésimo de segundo, de acreditar nele ao passo de ser a vereda cuja sombra se tornava segura. Era ele o farol a iluminar os seus passos.
Não muito, acalmou-se de modo a conseguir reagir e a seu próprio ritmo, tomando a bicicleta em suas mãos. Ulisses calou-se diante das suas marcas de sofrimento, respeitando-as em silêncio. Phillipe tornara-se grato por não ser importunado por seus sentimentos estarem fora de seu controle; ao contrário, o outro erguia os olhos aos céus, a dizer que há muito não via estrelas. E, ao tratá-lo de forma distinta, recordou-se, consternado, dos momentos em que se perguntava se poderia levar consigo os objetos recebidos, caso precisasse deixar aquela residência. O que fora incapaz de dizer ao seu tutor, entre aqueles dias, é que a cada instante se tornava mais difícil pensar uma vida em que estivesse distante daquela família.