Trégua forçada

 Ulisses, elucidado daquilo que aconteceu, disponibilizara-se para mediar a situação, porque Rachel, talvez, não pudesse fazê-lo por conta própria. Ela, contudo, recusara a proposta. Respeitar a definição das fronteiras era de fundamental importância para que se mantivesse a cordialidade. Prezava o respeito para poupar Leônidas do sofrimento que, permanecendo naquela casa, o pressionaria. A sensibilidade do momento surgiu enquanto inquietação de que os adultos também são governados pelo sentimento, e que a racionalidade óbvia para com a situação não surtiu efeito ao afastá-la daquele traste, representando um tremendo constrangimento. O poder, todavia, não estava em suas mãos.

 A sabedoria permitiu que conduzisse a situação com maior cuidado, com a expectativa de que Phillipe bastasse, num primeiro momento de desabafo. Encarregou-se de distrair o rapaz, enquanto ali estivesse, para administrar melhor as ansiedades, se isso estivesse ao seu alcance. Comparado àquela idade, em que a ausência de referenciais potencializava a subversão, seria comum o sentimento de ira para com aqueles que o cercavam, em medida semelhante à melancolia desmedida. Observavam-se, nos trejeitos dele, os sintomas dessa ausência de potência; logo, ele exibia um sorriso não tão radiante.

 Phillipe tentou fazer o que estava ao seu alcance como distração. Ulisses, no entanto, previa que as lágrimas derramadas não fossem suficientes para esgotar a apreensão. Preparara um delicioso jantar do qual Leônidas comeu muito pouco. Aproveitou-se do silêncio da ocasião para tentar consolar. Previa que, apesar de o contexto não ser mais o mesmo, isso não significava que se assemelharia ao inferno que confrontara antes de ali chegar. E, acima de tudo, ele não estaria sozinho dessa vez.

 Ulisses dormiu agoniado, pois previa que ninguém estaria imune a ser atravessado por preocupações durante a madrugada. Acostumara-se aos rapazes enérgicos, incapazes de interromper a conversa. Nunca os vira tão quietos. Amanhecera o dia, porém, e Leônidas parecia ter esquecido, brevemente, a questão que o afligia. Pediu permissão para que o tempo agisse até que as coisas fossem devolvidas ao seu devido lugar. Era um bem que fazia por si. À medida que conseguiu, implementou o conselho.

 Iniciaram a manhã com partidas de videogame, o que era um ótimo sinal. Telefonara, aos olhos de Leônidas, para Rachel, a fim de que ele ouvisse que tudo estava bem. Assim, pôde aquietar as desconfianças e seguir o dia com maior serenidade. Bartolomeu partiria ao pôr do sol.

 O resultado da conversa que aconteceu entre eles não foi discutido naquela ligação. Todavia, a notícia da partida alterou o ânimo de Leônidas, o que alimentou a meada de esperança de que a mãe dele fosse forte o suficiente para determinar os limites para aquela aproximação. Ele sabia que Bartolomeu não aceitaria facilmente receber o “não” como resposta. Diante da dificuldade de explicar a razão do seu constrangimento, preferiu calar-se. Afinal, Bartolomeu sempre foi um homem de comportamento agressivo; a razão maior por detrás de seu medo era qual atitude seria tomada quando a mulher insistisse que não deveriam estar mais juntos.

 Tudo era estranho demais para se contentar com a mesma medida, visto que ignorar a eventualidade era a forma de proteger seu ser de se ferir ainda mais. Ele não estava pronto para ter Bartolomeu tão próximo de si, apesar de saber que poderia retornar para casa e receber a notícia de sua mãe de que deveriam juntar as coisas, pois partiriam dali para um lugar onde o homem não os encontraria.

 Ulisses teve a generosidade de acomodar as bicicletas dele e de Phillipe atrás do carro, para levá-los ao litoral. Leônidas desconhecia uma ocasião em que se divertira tanto. Não apenas pela extensa trilha que ele e o garoto fizeram, mas também por terem entrado na água salgada.

 Ele retirou a prótese enquanto Phillipe lhe servia de apoio. As ondas pareciam fracas e pouco desafiadoras; pelo terreno plano, sentiram-se impelidos a caminhar mais para dentro. Por distração, uma onda se quebrou sobre seus corpos, fazendo com que caíssem no chão, infestando-os de areia. Da última vez em que esteve ali, Leônidas não fez mais do que se manter parado, observando a linha do horizonte.

 No domingo de manhã, Ulisses informou que recebeu a ligação da mãe dele enquanto eles faziam o passeio no parque. Reafirmou que tudo estava bem, sem dizer mais nada. Ele sabia que, ao término da tarde, retornaria para casa e, então, seria informado de todas as coisas que foram ditas enquanto ele estava fora. Acreditava que não haveria como ser mais surpreendido; por outro lado, sua intuição dizia que os dias de tranquilidade haviam sido deixados de lado para sempre.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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