Ser, apesar do mundo

 Aquele tempo em que os transtornos se mantinham não resolutos era melhor se comparado àquele em que tudo colapsou. Existia uma energia magistral por detrás da adolescência que alterava o estado de percepção das coisas. Logo, subitamente, as ruínas do conforto da infância foram substituídas pelo desespero da descoberta da identidade. Porventura, ao menos, eles atingiram o limite da exaustão em épocas diferentes, pois assim puderam prestar apoio mútuo mediante a fragilidade do outro.

 Na indefinição dos pais em entender a natureza dos atritos, ou os impulsos que os moveram a tomar as próprias escolhas, como um longo período de aridez, desapareceram as esperanças de seus espíritos, tombados pelo teor da descoberta, num mundo em que o conflito subverte muito mais do que a solidariedade. Um ombro para poder reclinar a cabeça, nada mais que isso. O descanso contra a tribulação. Entre fortalezas e pedras, o tempo dissolveu os dilemas e trouxe consigo as respostas. Era tempo de reparar aquilo que se quebrou, André acreditava.

 Parecia pequeno o espaço, a cada vez que estava próximo de Phillipe sem que pudesse conversar com ele. Felicitava-o por ele ter descoberto alguém que lhe desse atenção. Como uma página em branco, preenchida pela assinatura da determinação, Leônidas era um parceiro diferenciado, que entendia suas demandas. Assim, tornava-se mais forte do que qualquer outro, pois encontrava um lampejo em suas aspirações que o fazia sobrepujar o desânimo.

 André sempre foi mais comedido em comparação com aqueles que adotava como amigos. Pela ausência de excesso, pôde mergulhar numa jornada de autoconhecimento prematuramente. Ele foi o primeiro a chegar ao limite da exaustão. Solitário, incompreendido. Emancipado das críticas, não permitiu que isso fosse a navalha a repartir o seu espírito. Ele não ofendia ninguém, era modesto demais para usar as palavras como armas. Todavia, existia uma batalha dele contra o mundo no reconhecimento de que aquilo que era se distinguia das impressões que os outros tinham do que é ser.

 Ele nunca deu motivo para que, por suas ações, os outros o enxergassem com discórdia e fúria. A sensação de sufocamento convertera-se naquilo que o empurrava à angústia e ao desespero, na dificuldade de vincular o que sentia e permitir que seus pensamentos e sua identidade encarnassem sobre a pele.

 Por um expressivo tempo, ele não sabia o que aquilo significava. André não entendeu quando aquele pensamento se tornou mais consistente, a ponto de não conseguir ignorá-lo. Estava morrendo por dentro. Ninguém sabia o que se passava no silêncio de seu quarto. Deprimido, desprendeu-se da própria essência, porque enxergava que cada ser busca exercer o arbítrio que lhe é dado, sem haver coragem nele para definir o rumo de suas proposições.

 Os transtornos se intensificaram na adolescência, quando sua personalidade adquiriu contornos próprios, sem mais corresponder aos anseios de seus antecessores. Até então, as críticas que ouvia eram toleradas com indiferença. A coleção de miniaturas de carro dele era maior do que a de seu irmão. Suas roupas eram intencionalmente largas. Os meninos não se importavam se ele estava por perto, mas as meninas se sentiam desconfortáveis.

 André não era do tipo que se contentava em escutar explicações dos outros a respeito de seus dilemas; ele preferia um processo de investigação individual, em que contemplava a profusão do enigma da vida, permitindo-se conhecer as nuances das imprevisibilidades. A vida é um mistério fascinante. Permitir-se tocar pela potência do milagre era renascer em serenidade.

 O dilema que enfrentou era diferente, se comparado aos outros de sua idade, apesar de saber se camuflar. O comportamento introspectivo sempre fez com que os outros enxergassem nele uma timidez que nunca existiu.

 Existia uma contradição entre aquilo que os outros esperavam de si e aquilo que pretendia ser. Empurrado para aquele penhasco, a experiência havia de valer a pena, afirmando-se, enquanto sujeito, dono da própria história.

 Ele não tinha razões aparentes para se revoltar. Nunca quis que o teto em que dormia fosse alvo de discordâncias. E, por ter cortado sozinho os seus cabelos, anunciava que aquela era uma decisão irreversível, feita em defesa de seus sonhos.

 Por vezes, os ressentimentos são acumulados na incapacidade de tratá-los. O andar das estações agrava aquilo que não foi tratado, intensificando a potência do veneno. O orgulho pode parecer uma espécie de proteção, do mesmo modo que se compõe numa espécie de fraqueza que mata por dentro. Muito mais força existia no perdão. André acreditava que aquele era um momento adequado para isso.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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