Sem manual de sobrevivência emocional

 Leônidas esfregou o braço sobre a testa, removendo a marca de suor e deixando uma leve impressão de graxa, naquela tarde ensolarada. Não era a primeira vez que ele aprendia alguns truques de mecânica, no entanto confessava que nunca tinha ido tão longe nos seus esforços nisso. Bartolomeu sugeriu que passassem algum tempo juntos para poderem se conhecer. Ele não teve coragem de negar, pois acreditava que devia se esforçar para se reconciliarem.

 O homem se certificava de portar-se amigavelmente, numa estranha espécie de compensação ao que foi no passado. Ele queria garantir que Leônidas enxergasse nele alguém em quem pudesse confiar. A permanência do comportamento ríspido poderia servir de argumento para que o garoto se aproximasse de quem não lhe era agradável, então lhe pareceu razoável alterar a estratégia. Os ensinamentos de mecânica serviriam como uma ponte para que as distâncias fossem reduzidas.

 Leônidas sabia que Bartolomeu resmungara em todas as ocasiões que pôde, a respeito de ter se tornado um “desviado”. Todavia, defendia que, quanto mais tempo passassem juntos, maior seria a referência sobre quem deveria ser. Pela ausência de reclamações, inferiu que ele estava se esforçando e respeitava isso. Leônidas evitou aprofundar-se no pensamento crítico para que isso não fosse desvalorizado, porque precisava dar uma chance para tentar enxergar algo bom no homem.

 Bartolomeu lhe apresentou a funcionalidade das peças, assim como identificar pequenos defeitos num automóvel e os pequenos manejos para solucioná-los. Leônidas se adaptava com dificuldades, porém o propósito daquilo que queria para a vida adulta se tornou muito mais definido quando percebeu que não era aquilo que queria para si. Ele não gostava do modo como Bartolomeu falava, alegando pequenos macetes para enganar o consumidor, induzindo a gastar mais do que deveria, tentando persuadi-lo de que aquele era o segredo dos espertos. Não lhe pareceu decente ou honesto, apesar de ele lhe ter apresentado enquanto uma vantagem condizente para a sobrevivência.

 No tempo ocioso, Bartolomeu sugeriu que saíssem para dar uma volta, mas Leônidas, desmotivado, insistiu que não se sentia bem. Por sorte, Rachel, convencida disso, alegou que o excesso de sol lhe teria feito mal. O homem se decepcionou. Ele realmente queria que o garoto o acompanhasse. Ele não desistiu. Apesar de Leônidas ter se mantido trancado no quarto, horas mais tarde Bartolomeu bateu em sua porta, preocupado se havia melhorado. Apesar do lamento de desânimo, o homem insistiu para que assistisse à televisão consigo. Ele não pôde evitar, até se arrastar, descendo as escadas e acomodando-se no sofá, com a cara meio emburrada.

 Bartolomeu nunca foi empático, mas queria parecer ser. Um gesto de boa vontade colocava um sorriso amarelo no rosto dele. Leônidas odiava aqueles programas estúpidos.

 Não demorou muito para se sentir saturado de permanecer em casa, foi quando Calebe surgiu enquanto um salvador para os dilemas que enfrentava. Parecia sensato que o garoto seria recíproco caso lhe contasse os seus problemas. Isso seria uma espécie de trégua, através da qual talvez alcançasse mais sobriedade. Restava o futebol enquanto elemento que pudesse os unir, em virtude de que cada vez mais aqueles que tomou como amigos no passado se afastavam dele. A experiência não foi satisfatória. Leônidas recebeu não mais do que um olhar torto, um tapa nas costas, além dos dizeres de que tudo ficaria bem, para que parasse de falar.

 Calebe possuía os seus próprios dilemas, portanto não permitia que se debruçasse nos seus, sem antes escutar as queixas que ele poderia apresentar. Pela comparação, nunca era algo do tipo que o empurrasse a repensar a própria identidade ou enxergar a vida sob uma nova perspectiva. Os vestígios de fracasso nunca eram intrigantes ou pertinentes, mas Leônidas nunca se atreveu a não dar a devida importância.

 À distância, ele espiou Phillipe. O garoto exprimia em suas feições a indiferença, quando não parecia surtir nenhum efeito nele. Parecia muito mais alegre aquele espaço em que se sentavam junto com André ou Aroldo para conversar. Aquilo era apenas uma sombra do passado, algo que já não existia mais. Parte dele daria tudo para ter aquilo de volta. Leônidas tentaria silenciar tais inclinações.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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