Se for preciso, eu deixo ir

 Ulisses quase perdeu o senso de realidade quando chegou ao hospital. Ele queria ver Phillipe de imediato, mas isso não era possível. Escutar que o perigo maior não aconteceu não aquietava o coração. Apreensivo demais, irrequieto, descontentado, tendo caído de joelhos no chão, arrebentava no corpo o peso da culpa. Precisou ser dopado para conseguir se controlar. Ele perdeu a cor, sentiu dores de cabeça. Embora não conseguisse permanecer em pé, ao longo da noite não conseguiu pregar os olhos.

 Os impulsos foram contidos somente quando pôde ver Phillipe, que, sedado, adormecia. Ulisses queria machucar a si próprio, motivado pelo descontentamento do próprio desleixo, pois acreditava que tudo que acontecera era sua culpa. Ele baixou as guardas, concedendo maior liberdade a Phillipe. Confiou que, caso ele estivesse à beira do precipício, contaria com ele antes da queda. Existiram períodos em que os sinais de alerta foram muito mais contundentes, mas, dessa vez, na maior parte das ocasiões, o garoto se encontrava sereno e sorridente.

 A sensação de fracasso o impeliu à percepção de que não sabia como continuar, porque não se deu conta de suas falhas. Imaginara qual pertinência possuía na experiência de Phillipe, responsabilizando-se por não ter cumprido sua função, de suscitar nele a confiança para que resguardasse por sua integridade. As dores de Phillipe permeavam a sua pele num sofrimento maior do que o que o garoto sentia.

 Por um longo tempo, sua mente permaneceu inócua de pensamentos. Mas esses, quando retornaram à lucidez, vieram acompanhados pela disposição para a sensatez. Por seus esforços, não permitiria que aquilo acontecesse novamente; em semelhante intensidade, a vigilância que exercia talvez não desse conta de indicar a Phillipe os propósitos aos quais deveria ser fiel. Temendo a própria indulgência, ele estava disposto a uma aposta maior: a de que a permanência ao seu lado não seria aquilo capaz de sanar as dores da alma.

 Os indicativos do luto da partida de Phillipe começaram a dar sinais no seu sorriso desprovido de potência e na lágrima desgovernada que corria sobre o seu rosto, pois nenhuma expressão seria mais intensa se comparada a deixar partir quem se ama. Ele não poderia permitir que Phillipe permanecesse a seu lado porque isso o fazia feliz. Precisava considerar a possibilidade de que talvez a felicidade do garoto se encontrasse numa outra trajetória, distante dele, sem que isso desmerecesse o que pôde acrescentar à sua formação.

 Ele não foi reconhecido como pai, muito menos como herói, apesar de que cada momento ao lado dele foi guardado graciosamente. Para sempre seria grato ao sentimento daquilo que ele pôde suscitar em si. Era um tipo de coisa que Phillipe nunca entenderia. Então, Ulisses precisava se organizar para saber o que dizer quando Phillipe acordasse. Porque seria necessário ter essa conversa na qual anunciaria que, caso não quisesse mais permanecer com ele, a decisão seria respeitada.

 Todo o seu interior estava sendo consumido pela ansiedade. Ele nunca esteve perto de fazer algo tão difícil em toda a sua vida, mas lhe pareceu honesta a expectativa de que, no futuro, algum dia, eles se encontrariam para entender o que não entenderam, confundidos pela intensidade da emoção.

 Ulisses se convenceu de respeitar, caso assim fosse. Em suas feições, esboçaria um sorriso que lhe inspirava serenidade, para não sentir medo de uma escolha. Ainda que seu corpo inteiro tremer, implorando para não fazer isso, ele não teria a coragem de ceder ao seu próprio egoísmo.

 Não, por Phillipe ele seria capaz de tentar mil vezes, caso ele assim quisesse. Deus sabia quanto se arrependera por ter sido tão incisivo com ele. Deveria ter levado em consideração as reclamações feitas. Ulisses não conseguia omitir das pessoas ao redor o caráter perturbado da situação. Adormeceu no banco por exaustão. As roupas estavam amassadas, e precisou ser convencido de que poderia retornar para casa.

 Ulisses se rendeu ao pedido, porque precisava se sentir regenerado quando seus olhos pudessem encarar os de Phillipe. Para todas as coisas que fizesse, seria impossível desligar o pensamento. Mas, ao se deparar com os cômodos vazios, diante de uma ausência que poderia lhe doer tanto, precisava encontrar uma meada para colocar as coisas em seu devido lugar. Quiçá pelo clamor do tempo, como um rio sereno, que pela intenção da natureza segue o seu fluxo, tudo voltaria ao lugar em que deveria estar. Ele acreditava nisso. Embora a proposição pudesse gerar uma recusa, ao término tudo estaria bem.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

Contato

Entre em contato através das nossas redes sociais ou pela página de contato.

Redes Sociais

© 2026 Silva e Silva. Todos os direitos reservados.