Raízes de um infortúnio


Leônidas não sabia ao certo como eles chegaram àquele assunto. Acomodados abaixo da luminária, a atmosfera casual fez com que se sentisse seguro o suficiente para tratar do assunto sem ansiedade. Existia uma profusão em seus olhos em que Phillipe se atrevia a navegar. A história por trás daquele encontro era fascinante. E, apenas por ter conquistado a sua confiança é que se habilitou a contar o que se passou antes de sua chegada.
Secretamente, suas inquietações cresceram conforme os ecos emitidos pelo seu inconsciente. Ao menos em palavra era capaz de administrar o que sentia, tornando os seus medos menores. Estava seguro de que aquele passado não mais lhe pertencia, as tempestuosas águas foram atravessadas.
O nome dele, Leônidas, era uma homenagem ao pai de mesmo nome; porém, por infortúnio do acaso, não teve a oportunidade de conhecê-lo, pois o homem morreu num acidente de carro quando Rachel estava grávida. As feições dele eram reconhecidas através de fotografias, apesar de acreditar que eram parecidos tanto em forma quanto em temperamento. O amor aos esportes foi algo que herdou dele. Não apenas isso, mas também o formato de suas feições, a altura e a cor do cabelo.
Rachel pertencia a uma família modesta. Ela se mudou para uma cidade maior na tentativa de encontrar melhores oportunidades de estudo. Eles se conheceram na graduação, e a gravidez ocorreu de forma inesperada. A família dele não concordava com aquilo, tendo se mobilizado para impedir que permanecessem unidos. Eles resistiram, apesar das pressões que sofreram.
Todavia, a maturidade da idade não os protegeu das armadilhas que o destino lhes reservava. Preparavam-se para morar juntos, para que assim formassem uma família, quando o inesperado aconteceu. No oitavo mês de gravidez, enquanto atravessava a rodovia em retorno para casa após a ida ao estádio, um caminhão bateu violentamente contra o seu carro, ele não resistiu ao impacto.
A ausência do homem precipitou um sofrimento profundo. O grande amor da vida dela desapareceu inesperadamente. Expulsa de casa pelo pai, desapontado com a gravidez, e recusada pelos parentes do parceiro, ela sabia que teria a responsabilidade única pela criação de seu filho.
Diante das circunstâncias, Rachel até acreditou que seria melhor perder o bebê, mas, aos poucos, à medida que encarou o luto, percebeu que na existência de Leônidas residiam os últimos traços daquele que tanto amou. Por ele, ela entregaria até o último de seus esforços. Ele foi a esperança que brotou quando não existia nada em que acreditar.
Então, quando o médico anunciou as complicações após o parto, Rachel acreditou que a vida não havia a penalizado o suficiente. Agarrou-se a Leônidas, temendo que partisse. Aquele se tornou o seu maior medo, pois a morte dele seria a confirmação de que estaria sozinha pelo resto da vida.
A sobrevivência dele representou os motivos de que precisava para continuar lutando. Ela conseguiu se virar como pôde, até ser acolhida por aquela comunidade campesina, que proporcionou o mínimo para que se percebessem seguros. Todavia, o preço da permanência consistia na fé cega e na rígida obediência aos dogmas estabelecidos. Foram muitos anos de alienação para se desapegar rapidamente. Os hábitos deles eram severos demais. Esses reflexos ainda se encontravam no cotidiano, mesmo após o afastamento.
Quando Leônidas estava com seis anos, Rachel conheceu Bartolomeu. A imagem que ela tinha dele não havia sido manchada o suficiente para afastá-lo. As marcas que carregava em sua aparência entre aqueles dias eram fruto da convivência com aquele homem.
A princípio, aos olhos dela, Bartolomeu pareceu muito gentil, tendo a convencido a juntos construírem um lar amigável, pois era temente a Deus e trabalhador. E, decerto, o fato de ele ser admirado naquela comunidade fez com que ninguém obtivesse dúvida do caráter dele. Bartolomeu era camarada para com todos e pertencia a um agrupamento tradicional por gerações entre aquelas terras. Com o tempo, no entanto, Rachel descobriu que o homem não era, de fato, nada daquilo que ela acreditava ser.