Quase um milagre

 Bartolomeu era o único mecânico da região. Sempre impaciente, de temperamento bruto e imprevisível, dividia o tempo entre o trabalho e o boteco. Ele agia de maneira agressiva e intolerante, logo tudo era motivo para reclamação. Mesmo sóbrio, usava o deboche para disfarçar seu desprezo. Assim sendo, eles nunca conseguiram se estabelecer enquanto amigos, pelo fato de que o homem se decepcionou ao perceber que a condição do corpo de Leônidas o impediria de também se tornar um mecânico.

 Bartolomeu era explícito em suas expressões de desprezo. E, apesar de amar Rachel — numa espécie de amor duvidoso, descrito na maior parte do tempo pelo tratamento ríspido dele —, a existência de Leônidas se tornou um transtorno para a dinâmica daquela família.

 Não demorou muito para Leônidas perceber que não era capaz de medir forças contra ele. Bartolomeu era covarde, sem escrúpulos, e não o poupava das agressões. Talvez por essa razão não tenha contado a Phillipe sobre o que lhe aconteceu antes de chegar ali, pois isso envolvia a quebra intencional de sua prótese. Rachel gastou suas economias na compra daquilo, enquanto o homem esperava usar essas reservas para adquirir peças para o seu amado carro.

 Então, numa das discussões, ele perdeu a cabeça. Ele estava bêbado naquela noite, quando começou a brigar. Cansado de tais humilhações, por impulso, Leônidas se atreveu a confrontá-lo. E, por consequência, o homem não se conteve, tendo se atirado contra ele.

 Leônidas desconfiava de que Bartolomeu era contrário a todos os meios que o tornavam — ou tornavam Rachel — independente dele. Ele nunca admitiria aquilo. No ápice dos eventos, ele agarrou o seu pescoço, tendo o pressionado de forma violenta. Rachel precisou intervir, golpeando-o na cabeça, sem surtir efeito. A custo de muito esforço, fez com que ele se desvencilhasse de Leônidas, sendo que, por um momento, previu que a intenção de Bartolomeu era matá-lo.

 Por Rachel ter defendido seu filho, como uma espécie de punição, ele tomou a prótese de Leônidas, aplicando o golpe que fez com que a peça se inutilizasse. Nada lhe causaria mais desgosto comparado a isso. Ele esperou tanto tempo por aquilo que agora se desintegrava diante de seus olhos…

 Fazia algum tempo que o grau de agressividade aumentava ao longo das discussões, porém o que aconteceu naquela noite foi algo sem precedentes. Aquela casa estava se tornando um campo minado, e ele era o mais vulnerável em toda aquela situação. Era uma questão de vida ou morte.

 Não havia indícios que permitissem nutrir esperança de alteração naquele quadro, à exceção de que Rachel tinha o hábito de apostar na loteria. Por acaso ela encontrou na manhã seguinte o bilhete que havia jogado na última semana. Ele estava meio amassado, pois estava no fundo de uma calça que colocou para lavar. Por sorte, recuperou o papel antes de afundar a vestimenta na água.

 Ela pretendia conferir na ida para o trabalho, mas, por causa de um transtorno gerado por Bartolomeu, atrasou-se antes de sair de casa. Apenas na volta do expediente que ela teve a oportunidade de conferir os números. Para ocasionalidade do momento, ela recebeu o prêmio principal da categoria que concorreu. O ímpeto foi imediato.

 Se, por um lado, aquilo era motivo de euforia, por outro havia o reconhecimento de que Bartolomeu nunca permitiria que ela colocasse as mãos naquele dinheiro. Em suas mãos estava uma foto de Leônidas. Mais do que aquilo representaria para si, era para o futuro daquele rapaz que tanto havia sofrido. Ela não tinha o direito de privá-lo da possibilidade de viver com dignidade e, por essa razão, foi tomada por um impulso contrário a tudo que fizera nos últimos anos.

 Bartolomeu havia saído de casa sem hora para voltar. Leônidas estava distraído quando Rachel chegou às pressas, pedindo que juntasse suas coisas, pois partiriam quanto antes. O garoto não entendeu a princípio, no entanto fez o que ela exigiu. Eles sabiam que aquilo representava um rompimento definitivo. Embora aquilo pudesse ser uma pequena meada de esperança, era poderosa o suficiente para se sentirem motivados a insistir.

 Leônidas permaneceu vigilante enquanto sua mãe colocava às pressas as últimas coisas no carro. Conforme a partida se aproximava, o medo se intensificava. Dentro do veículo, as lágrimas caíam, e ele as percebia no rosto da mãe, que tentava manter a firmeza para conduzir o veículo. Temeram até o último segundo. Sem roteiro de viagem, tomaram o trajeto mais imprevisível na rodovia.

 Levou algum tempo até abandonarem o medo. Então, sobre suas mentes desabou tudo aquilo de que, na presença dele, não eram capazes de se dar conta. Em algum lugar da estrada, entre as rochas e as curvas, prometeram-se que Bartolomeu seria esquecido.

 Leônidas não conseguiu pregar os olhos. Como sua mãe, ele sabia: nenhum lugar parecia longe o suficiente para se sentirem seguros. Permaneceram em silêncio noite adentro. Uma sutil força, tal como uma intuição, os guiou e os protegeu pela estrada. Era como se o pai dele estivesse junto com eles.

 A tal modo encontraram aquela cidade, a mais de quatrocentos quilômetros do homem que tanto os fizera sofrer. Apesar de tudo, isso não foi verbalizado em nenhum momento, mas persistia neles o pressentimento de que, independentemente da distância, um dia seriam descobertos.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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