O trajeto até a escola


Restavam vestígios de lágrimas no travesseiro quando Phillipe acordou. Esvaziado de ansiedades, reconheceu que, nos últimos tempos, não havia permitido que os pensamentos mais racionais conduzissem suas ações. Por suas concepções, na incapacidade de negociar, centrou-se no que era sua obrigação. A indiferença encarnou-se em seu comportamento na perspectiva de que sair para o compromisso consistia num constrangimento menor do que permanecer. Ele se conhecia — aquele desconforto não o abandonaria. Desde que não interagisse com ninguém, ele seria deixado quieto. Se a sorte subvertesse a razão do momento, encontraria motivo para retornar. Pelo contrário, na sua ausência, Phillipe estava convencido do que fazer. Ele nunca descartou aquela alternativa, embora a intensidade de seus sentimentos naquele dia não o impulsionasse a tanto.
Levantou-se antes que Ulisses batesse à porta de seu quarto. Sob a água, o corpo regulava o temperamento. Aprontou-se e desceu para o café. Ao reconhecer o que sentia, tornou-se capaz de controlar aquilo que o sufocava. Não era muito, porém se convencia da enganação. Estranhava o risco, mas não permitiu que os gatilhos servissem de base para sua autossabotagem. Ele sabia que, em algum lugar dentro de si, algo de bom poderia brotar, ressignificando todas as vezes em que desfaleceu em pranto. Naquele momento, não conseguia identificar de onde vinha o otimismo, mas lembrou-se de como era ter esperança e, por isso, sentiu falta daqueles dias.
Phillipe percebeu que fugir era uma alternativa cômoda. No entanto, submeter-se aos seus medos teria um alto preço, e ele sabia que, se permitisse que crescessem dentro de si, talvez não tivesse forças para reverter aquilo que havia alimentado.
Em algum momento da noite, sem saber como, sentiu explodir em seu peito uma vontade de provar a todos a falsidade das bobagens que diziam a seu respeito. Pela dignidade do momento, ergueu o queixo, considerando a ideia de transformar sua permanência em um ato de protesto. Então, as palavras de Ulisses começaram a fazer um pouco de sentido. Se ele realmente acreditava em seus talentos, apesar dos receios iniciais e do costume de permanecer solitário, decerto encontraria um meio de seguir adiante.
Ulisses, por sua vez, perdeu a referência de como reagir. Ao deitar-se na noite anterior, preparou-se para uma difícil batalha, acreditando que teria de empregar todos os seus esforços para convencer Phillipe a sair para os estudos. Seus argumentos estavam prontos, mas seriam desperdiçados. Ele sabia que Phillipe não aceitava elogios. Também conhecia a dificuldade de dialogar com ele quando se encontrava apático. Não queria dar motivos para que se retraísse ainda mais. Poderia fingir que aquela era apenas uma manhã comum, contudo preferiu se certificar.
Phillipe embolou a bolsa nos braços, sentando-se no banco da frente do carro. Antes de dar a partida, Ulisses advertiu que, caso não conseguisse sustentar as coisas, deveria chamá-lo, pois ele iria ao seu encontro. Phillipe consentiu, mas, por orgulho, sabia que preferiria enfrentar o dia inteiro antes de recorrer a Ulisses. Ele pretendia evitar a qualquer custo o estigma de que era um garoto problemático e fraco. Por isso, engoliria a ansiedade contra a própria vontade, apenas para sobreviver.
Pelo entroncamento de sentimentos, admitir era doloroso, mas o que Ulisses fazia era uma expressão de amor. E era por isso que Phillipe o odiava tanto. Ele era mais forte. Sabia se compadecer antes de sustentar convicções tolas.
Leônidas os aguardava a algumas quadras de distância. Ulisses se despediu, deixando-os próximo do Athenas Instituto. Entretanto, Phillipe não sabia como continuar. Não por qualquer adversidade que pudesse encontrar ali, mas pelo que Leônidas representava. Ele não saberia descrever quanto aquilo contrariava suas expectativas, no entanto, na maior parte do tempo, acreditou que o garoto era digno de pena.
Leônidas não era tão desengonçado quanto acreditou que seria; pelo contrário, era excessivamente modesto e sorridente. Qualquer um poderia se aproximar dele com facilidade — talvez porque, no fundo, fosse um fracassado. Apesar de ter plena consciência de sua condição, fazia o possível para disfarçar.
Foi Leônidas quem sustentou a conversa, pois Phillipe pouco se interessava em falar. Sua preocupação recaía sobre sua reputação por estar ao lado de alguém com deficiência. Leônidas precisava de amparas, pois lhe faltavam parte da perna direita e parte do antebraço esquerdo. Phillipe não se importava com como aquilo aconteceu, mas também não conseguia ignorar.
Quando Ulisses estacionou o carro, Phillipe conheceu a mãe de Leônidas. A impressão não foi das melhores. Havia algo nela que remetia a uma comunidade conservadora de hábitos severos da qual fez parte. Isso se refletia na maneira como parecia estagnada no tempo. Leônidas era filho de uma mãe solteira, uma “caipira” desajustada. Seus cabelos eram desalinhados, e suas expressões eram deprimidas.
Phillipe não sabia exatamente o que havia acontecido com eles. Dias depois, no entanto, Leônidas confessaria que, quando criança, os garotos de sua idade tinham medo de sua mãe, por acreditar que ela era uma bruxa. Ele nunca teve amigos. A cada movimento daquela mulher, Phillipe via um ato de coragem. Sabia reconhecer quando alguém lutava para reconstruir a vida com dignidade, sobrevivendo ao medo, pois essa também era sua história. Ele percebia que o otimismo de Leônidas era apenas uma camuflagem.
Havia algo diferente no olhar dele que atiçava sua atenção. Talvez fosse a perplexidade de seu otimismo diante de um cenário do qual normalmente se esperaria desgosto. Ainda assim, Phillipe não permitiria que percebessem isso, muito menos colocaria em palavras.
Quando a mãe de Leônidas se aproximou do carro, após ele já ter entrado, deu-lhe diversas instruções. Ele escutou calado, consentindo, como se nunca tivesse pisado em uma escola antes. Suas roupas eram modestas, mas Phillipe sabia que eram o melhor que ele tinha. Não o julgaria por isso. Afinal, ele próprio ainda não conseguia enfrentar seus próprios dilemas — como poderia compreender os de Leônidas? E, no fundo, Phillipe sentia que nada nele era bom o suficiente para ser aceito.