Lanterna


O último vínculo que Leônidas manteve com a sombra do seu passado desfez-se quando a sua prótese foi reconstruída. Para além da estética do corpo, um degrau acima, sua independência. Isso potencializou a sua busca pelo propósito, tanto quanto não mais poderia suportar a solidão. A motivação pela emancipação ardia de forma desmedida, inferindo que existiam dilemas que ainda lhe eram desconhecidos, e parecia-lhe lógico que esse tempo de descanso seria proveitoso se fortalecesse seu espírito.
Sua mãe cometera equívocos, os quais se dispusera a perdoar por ter o que compensar. Ele não entendia o porquê de ela se comportar daquela forma. Este era o estado em que ela poderia ser descrita: sem motivação para ir de encontro às essências, resignara-se à trajetória na previsibilidade, sem se atrever a correr algum risco. A rebeldia vertiginosa e involuntária corroborava um espírito inquieto, advertido por sua perspectiva de que o sofrimento da dinâmica correspondia à ausência de ação.
Era de cortar o coração. A casa era pequena, viviam em um método muito precário. Por todas as coisas a que assistiu, temia precisar revidar. Despreparado, pequenas pedras sequer cabiam em sua mão, convencido de que era um covarde inútil. Precisava ter no que acreditar; ter no que se agarrar para se manter vivo.
Apesar do aperto em seu coração, quisera se testar, deixar as crenças descabidas de lado para testemunhar até onde seus esforços poderiam conduzi-lo. E ninguém haveria de fazer por si, senão ele mesmo, não descontando a ninguém que se desafiava, prevenindo-se contra desapontamentos e cobranças. Por vezes, sentia a necessidade de falar o tempo inteiro, de atrair para si a atenção, quando noutras, no silêncio, encontrava a confiança avassaladora que o fazia acreditar que era capaz de fazer qualquer coisa.
Então, quando ele se afastou de Phillipe, não era pela definição de que não mais lhe servia; não obstante, há tempos não podia se concentrar em si de forma tão incisiva. Em breve se tornaria um homem. O peso da responsabilidade provocara seriedade. Era como se todas as circunstâncias viessem contra si de uma vez, e compenetrar-se foi a forma encontrada para reagir como defesa.
Phillipe amadureceu cedo, enquanto Leônidas se enxergava como uma criança que acabara de entender que se tornara um adulto. O medo de fracassar tornara-se a motivação para insistir nos estudos. Os ecos de seu coração inseguro, como um pássaro sufocado, sinalizavam que as responsabilidades seriam fardos pesados que ele teria que sustentar sozinho.
Entre aqueles dias, sentiu que precisava de mais espaço para suprir as suas preocupações. Sem ter com quem compartilhar, Phillipe tinha problemas demais para contaminá-lo com os seus.
Na definição dele, os caminhos pelos quais eles passariam sempre foram fragmentados. Ele não esperava, no entanto, que a desassociação seria um fator de atrito. Ele nunca teve aquela intenção. Então, quando Phillipe se afastou, acreditava que tudo estava bem. Ele nunca deixou de manter os olhos nele. Até mesmo na excursão, em meio às suas ocupações, o tempo todo olhava para trás para certificar-se de que o garoto estava por perto.
Talvez ele não tenha sido tão claro ao dizer para Phillipe o que ele significava. A sinergia que sentiam quando estavam juntos era incomparável. Os pensamentos um do outro eram sentidos apesar da distância. Os sentimentos eram lúcidos e clarividentes. E, por ter experimentado a sensação de perdê-lo, se Phillipe tivesse se machucado, ele não se perdoaria.
Leônidas acreditou que, por ter se afastado de Bartolomeu, o destino foi generoso consigo, todavia não conhecia a potência desse intuito. Nada daquilo teria a mesma importância caso não conhecesse Phillipe. Era capaz de sentir náuseas por pensar que as coisas seriam diferentes. Ele nunca esteve tão seguro das coisas que adquiriu. Um sonho impossível de se derreter. Ele estava alucinado pela liberdade, a alegria nunca esteve com tanta profusão em seus olhos. Mas, para cada ação, percebia-se disposto a despontar pela razão de que ele estava a seu lado.
Naquela tarde, no acampamento, esperou por Phillipe, perguntara pelos seus indícios. Desesperou-se por perceber sua ausência. Pareceu-lhe imprudente se aventurar pela floresta na tentativa de o encontrar, no entanto não tinha dúvidas de que ele faria o mesmo por si. Num lugar escuro, desprovido de inspiração, ele foi a lanterna que o fez enxergar a saída. Ninguém faria por sua defesa aquilo a que o garoto estava disposto.
Descobriram um ao outro timidamente. Receosos, a causa por detrás das mágoas não foi anunciada por completo. Mas, desde que as cicatrizes foram expostas num sagrado pacto, seus espíritos foram interligados. Ele era sua última esperança e, apesar de entender que os dias não seriam perfeitos, retornavam para casa convencidos de que fizeram o melhor. Quando tudo ruísse, ele não o deixaria cair. Mesmo quando, traído pelo orgulho ou pela vaidade, não fosse suficiente para cortar a intensidade do elo. Algo estava por acontecer. Leônidas não sabia, contudo precisaria ser mais forte do que nunca.