Escuridão


Procurou encontrar em que ancorar o seu pensamento. Nada lhe fazia sentido. O buraco que se estabeleceu em seu coração impedia que enxergasse para onde voltar, porque nada mais importava. Vagou pelas ruas, sem direção definida. Era tarde demais para retornar para casa. Ele retirou os óculos a fim de descansar as vistas, tal como se isso pudesse aumentar sua lucidez. O mundo afora nada se diferia do mosaico que estabeleceu em sua mente, com a diferença de que nada era sublime.
Denner deixou os óculos caírem em algum lugar da grama, por distração, quando se sentou nela. Passou a mão sobre seus cabelos desalinhados, as expressões amassadas pelo cansaço, faltava-lhe fôlego. Seus passos eram desprovidos de força.
Ele não levantou suspeitas, porque a determinação que carregava em seu peito omitia a sensação de que havia se perdido. Aquilo, sobretudo, era um ato de vingança contra uma queda de braço em que perdera os meios para negociar. Os truques que possuía eram mais desonestos naquela disputa, porque, se machucasse a si mesmo, maior dano provocaria nela. Denner recorreu a essa estratégia quando perdeu a liberdade de ser quem era.
Ele dependia do afeto enquanto uma ferramenta para oprimir o seu lado obscuro. Ninguém se importava consigo o suficiente para se sentir amado. Nunca nutriu sonhos, o presente lhe era mais pertinente. Aborreceu-se por não ter encontrado o propósito para poder se tornar alguém respeitado. Portanto, a ausência de reconhecimento fez com que perdesse o estímulo para continuar.
Denner entendeu que, se tivesse confrontado os seus medos antes, não seria arrastado para o limite da fronteira, onde todos os demônios investiam contra ele de uma só vez.
Ele quis contar para alguém as coisas que aprendera, na perspectiva de que poderia prevenir que os outros se enveredassem pelas mesmas escolhas. Seu orgulho era severo demais para retornar, na condição de que, pelo estado das coisas que fez, ninguém estaria disposto a perdoá-lo.
No lapso do delírio, ele sentiu prazer pelo prejuízo que seria causado a Phillipe pela disseminação de seu diagnóstico. Era previsto que ninguém mais se atreveria a se aproximar do garoto.
Denner estava certo. A ira dos ignorantes. O abaixo-assinado. Um campo minado, o pior pesadelo. Ele assistia ao desembolar do espetáculo, até que uma chama de sensatez o culpabilizou pela invasão de privacidade. Ele não previu que poderia ser interpretado como um traidor estúpido. Os efeitos colaterais de toda essa trama recaíram sobre si.
A brisa leve e gélida confrontava o seu rosto, enquanto mantinha as mãos sobre os bolsos da jaqueta. Seus olhos claros pareciam mais intensos do que nunca, com a observação de que existia maldade por detrás daquele sorriso.
O que fez não era digno de perdão, embora Phillipe tivesse dito que não se importava. Isso estava errado. Ele deveria ter fincado as unhas em sua pele, despejando toda a ira em gritos. Esperava que o ódio dele fosse maior que o seu, só assim as coisas que fez teriam significado. Porque acreditava que no limite poderia conhecer o pior dele. O garoto, no entanto, quebrou o seu orgulho com a espada do perdão. O solavanco final contra o vazio que se estabeleceu em seus pulmões.
Denner não entendia a natureza daquilo, a não ser pelos vestígios da poderosa força que aquilo possuía. Nem se investisse todos os seus esforços, ele não machucaria quem estivesse disposto a perdoar. Phillipe olhou firme em seus olhos e prometeu que, unidos, eles conseguiriam reverter aquele jogo. E, durante um tempo, Denner acreditou nisso. Aquele foi o maior lampejo de esperança que poderia receber. No entanto, ter se deparado com a sua mãe lhe retirou qualquer perspectiva de que o transtorno poderia ser solucionado. Christinne preferia tê-lo morto do que ao lado de Phillipe. Ela se arrependeu de ter dado a vida a ele, ela disse.
Existia uma parte de Denner que reconhecia que aquela era uma crise de fúria; em meio a tantas tribulações, deveria admitir o lado humano, na condição de que se precipitara. Bastava esperar para que a desavença fosse deixada de lado.
Existia, no entanto, tanta verdade naquilo que disse… Christinne precisava dizer aquilo como um desabafo, para, assim, tornar suportável o convívio com ele. Seria inocência julgar que interpretaria a tal modo. Ele ofertaria a sua ausência como uma recompensa, um modo para reparar o estrago que causou.
Antes do fim, estranhamente, na única imagem que vinha à sua mente, ele se via abraçado junto de sua mãe. Uma lágrima escorreu em seu rosto. Deus sabia quanto queria que as coisas fossem diferentes. Ele a perdoou antes do último momento.
A escuridão pairou sobre sua cabeça quando fechou os olhos pela última vez. No último segundo, um desejo: que não houvesse se precipitado, que pudesse ter suportado mais um pouco, porque, por sorte, em pouco tempo teria a coragem para se apegar à luz.
Ele se equivocou, a ausência dele seria sentida com desespero e culpa no coração e na mente daqueles que o amavam. Num mundo perfeito, Denner quis que aquilo que lhe aconteceu servisse de exemplo para mais ninguém fazer o mesmo.