Ele voltará


Leônidas retornara solitário para casa. Phillipe insistira para o acompanhar, mas ele não permitiu que cruzasse para além do parque e, na incapacidade de contrariar, acatou o pedido. Por carecer de educar o espírito para o confronto, construiu a imagem de que, ao retornar, inevitavelmente se depararia com Bartolomeu. Impelido pela reação explosiva, se Phillipe estivesse por perto, ele precisaria reprimir seus sentimentos.
A escuridão do trajeto adveio em sussurros a seu ouvido, de modo intrusivo. Escapar para longe dali era o que precisava fazer; o mais rápido que suas pernas conseguissem levá-lo, sem deixar vestígios. Ele não tinha forças para retornar. Phillipe afastou-se de modo que não o enxergava mais e sentou-se, aflito, no banco que encontrou. Despreparado, quis admitir que lhe faltavam forças, mas a covardia, contudo, era condizente com o conforto. Por mais que se movesse ligeiro, os transtornos haveriam de alcançá-lo. Seus pulmões foram esvaziados de inspiração, acreditando que a finitude de sua existência havia composto a solução imediata para a questão.
Era premeditado que aquilo aconteceria cedo ou tarde. Prever não fez perder o aspecto de crueldade — quer por um método ou outro —; essa era uma disputa em que Bartolomeu obtinha maior vantagem. Não desacreditava as palavras dele por pirraça, mas por prevenção. Por todas as coisas que fez contra si, era incapaz de perdoar. Ele odiaria Bartolomeu até o último dia. Era o homem indigno de seu reconhecimento. Qualquer sofrimento que permeasse sua pele era insuficiente se comparado ao mal que poderia causar.
Entendeu aquele dia, em que Phillipe escapou entre os montes, com a justificativa de que se perdeu — ele apenas queria ficar sozinho, pois desacreditara que alguém poderia superar o estado desolado em que se encontrava. Parecia sensato que fizesse o mesmo, à ressalva de que, dessa vez, a lanterna estaria ausente de suas mãos. Onde estaria a luz? O frio cortava sua pele. Doía a garganta por engolir o pranto.
Obstinava aquela muralha, a mais difícil de escalar. Precisava espiar o que aconteceu, escutar alguma explicação, pois também precisava ser convencido do que havia acontecido. Precisava acreditar em seus argumentos ou clamar para haver alguma alternativa. E, se a fraqueza fosse algo intrínseco à sua essência, precisava descobrir-se tanto quanto se resignar ao fato de que não havia tempo a perder e que, de algum modo, precisava se adequar à aceitação. Esta, por sua vez, era o aspecto mais difícil, pois, em seu desejo e em sua expectativa, ele construíra um lar agradável.
Bartolomeu não estava em casa, como sua mãe havia prometido. Quando se encontraram, imediatamente saltou sobre os braços dela, sendo tomado pelo alívio daquela aflição. Ela estava bem, e ele estava convencido disso, mas aquilo sobre o qual precisariam conversar seria a parte mais difícil. Ela quis saber primeiro das coisas que aconteceram enquanto ele estava fora. Ela também contou os detalhes daquilo que se sucedeu depois que ele partiu. Por curiosidade, Bartolomeu foi embora pouco depois que ele também havia partido.
Combinaram de se encontrar na cidade no outro dia para poderem conversar. Essa era a primeira causa do estranhamento: Bartolomeu nunca foi um homem de diálogo; ele era muito impulsivo quanto àquilo que era de seu interesse. Isso era um mau sinal.
Ela contou, então, que teve forças suficientes para condenar todas as coisas que ele fazia e que a incomodavam. Explicitou que o modo como ele a tratava tornava a convivência inadmissível. Apesar disso, antes de dizer as causas de sua frustração, Bartolomeu antecipou cada uma delas, pela razão de entender o que havia feito e pretender compensá-los por isso. Ele nunca quis tomar uma medida incisiva contra eles, porque era seu objetivo tê-los de volta.
Ele precisava que ela enxergasse nele aquilo em que estava se esforçando; os olhos dele lacrimejaram ao insistir que era difícil demais reconhecer, em sobriedade e sem ela, que isso não seria possível. Ele praticamente implorou para ela o aceitar de volta. Se não fosse por isso, ela o condenaria a viver em desgraça. Ele nunca teve honestidade para reconhecer os seus erros, muito menos tentou agir de outro modo. Poderiam pressupor que o choque de realidade que recebeu alterou as válvulas de seu comportamento, ajustando-o para que entendesse a essência das coisas. Enxergava um reflexo de espiritualidade que a fazia crer que deveria ter dado uma chance. Mas isso não seria possível sem o consentimento de Leônidas, aquele que foi mais ferido em todo aquele processo.
Por essa razão, Rachel informou que Bartolomeu pediu que o encontrasse, para conversarem a respeito daquilo que aconteceu, para que então Leônidas conhecesse outra perspectiva desse caso.
Rachel tomou a sua mão, olhou no fundo dos seus olhos e insistiu para ele abrir seu coração, a fim de tentar ponderar os seus receios e ter a coragem de fazê-lo. Era tarde demais; o garoto já havia caído em prantos. Ele sabia que, independentemente de sua vontade, a decisão dela era de retornar para Bartolomeu. Antes que continuasse, ela tentou argumentar que havia afirmado a Bartolomeu que não pretendia deixar aquela cidade e que ele deveria entender que o tempo que lhe seria concedido não seria mais do que um teste para provar aquilo que estava alegando. No entanto, ele deveria entender que ela não se sujeitaria àquilo que lhes acontecera no passado.
Leônidas foi dormir profundamente entristecido, sabendo que aquela era uma batalha que havia perdido, mas não desistiu. Aquela era uma decisão que ele tentaria reverter.