Conduta

 Por vezes, era preciso parar e reler o manual à procura de esclarecimento para uma questão de última hora, tal como uma pedra a encalhar o andamento dos estudos. Livros estirados sobre a mesa, concentrados, lápis riscavam as páginas em cálculos. Leônidas estava desacostumado a passar tantas horas estudando, porém as exigências de sua mãe diante daquela oportunidade faziam com que o desânimo se esvaísse subitamente.

 Apoiado por Phillipe, executou as simulações que o pressionaram a praticar mais para atingir um bom resultado nos exames. Complementavam-se. Entre as adversidades, a camaradagem constituíra-se na cola para potencializar a parceria. Phillipe lhe ensinara os macetes. Por intermédio dele, aprofundara-se na leitura; quisera atingir o raciocínio rápido. Em caso de uma dúvida persistente, esperavam até que Ulisses estivesse ao alcance para ajudá-los.

 Nos projetos em que poderiam trabalhar juntos, inspirados pelo fascínio que poderiam provocar, empenhavam-se, tal como naquele em que foram encarregados de elaborar uma maquete representando o interior de uma célula humana. Phillipe era muito criativo e habilidoso para a arte. A exposição fora satisfatória, elogiada. Rachel compareceu mais tarde para assistir ao que tinham feito, retribuindo o orgulho pelo que viu.

 Mesmo quando o tempo não era preenchido por formalidades, a oficina de bicicletas ocupava a dinâmica. Comumente, Leônidas sentava-se enquanto Phillipe fazia algum tipo de reparo. O barulho das ferramentas ecoava em sua mente. Era intrigante e extraordinário o modo como ele geria aquilo. Leônidas ainda não havia perdido as esperanças de negociar o modelo amarelo, pois, quando dotado da prótese, era capaz de andar de bicicleta.

 Por vezes, Leônidas passava tanto tempo naquela casa, que Ulisses o convidava para o jantar. Eram separados apenas pelas horas de sono em que cada um permanecia na sua casa. Todavia, logo cedo, quando acordavam, encontravam-se no caminho para suas responsabilidades. Partilhavam da companhia na hora do almoço e nas atividades de voluntariado. E, nos finais de semana, encontravam desculpas para se verem, numa espécie de passeio ou algo do tipo.

 E, se num primeiro momento existia uma barreira de ideias infundadas entre eles, aos poucos se acomodaram num espaço onde poderiam ser eles mesmos.

 Ulisses recordava que, ao término do último ano, precisou insistir exaustivamente para que Phillipe comparecesse à escola. Trancava-se ao dormir. Pela manhã, por mais que insistisse para sair do quarto, de nada adiantava. Gritava frustrado pela teimosia e, por consequência, atrasava-se para o trabalho. Ele sabia que não poderia desistir da educação de Phillipe. Caso se desse por vencido, o dano seria irreversível.

 Ulisses sabia que o transtorno não se dava pela ausência de inteligência. Phillipe aprendia com facilidade e nunca entrava em atrito com as autoridades. O problema era que se inserir socialmente lhe era desagradável. A cada vez que se exaltava, ele respondia na mesma altura.

 Quando pensava que era incapaz, Phillipe tomava suas chaves em segredo e as escondia para não poderem sair de casa. Cuspia os remédios que precisava tomar propositalmente, por revolta. Em muitas situações, Ulisses precisava mantê-lo em casa, deixando-o sem vigilância. A todo instante, sabia que era um teste ao qual estava sendo submetido e que precisava ora manter o pulso firme, ora fazer concessões.

 Existiam épocas em que Phillipe progredia, elucidado das responsabilidades, cooperativo e obediente, convencendo-se da importância das ações na construção de uma rotina saudável. Todavia, quando determinado a retroceder, eram escassos os elementos de barganha para retirá-lo da indisposição e da agressividade.

 O componente emocional ainda lhe era muito característico. Poderia residir aí sua maior força, contudo também sua maior fraqueza. Por Ulisses ser o adulto que assumira a responsabilidade de orientação, os outros desconheciam o esforço e a exaustão para que Phillipe não desistisse.

 A teimosia subvertia o diálogo. Por orgulho, apesar de se ferir, permanecia convicto em suas definições, mesmo quando se equivocava. Prestativo e dotado de boa vontade, porventura suas ações eram imprevisíveis, mas repletas de beleza. Das ocasiões em que se negava, uma tempestade. Dos propósitos que aprontava, o impossível parecia um estado atingível.

 Nunca pudera expressar, tão honestamente, o modo como se sentia, porque era involuntário. A cada vez que Ulisses o via sofrer, seu coração era arrastado de encontro à angústia.

 Quando as circunstâncias eram favoráveis, descansava, inundado por aquele sentimento poderoso que apenas ser tutor poderia lhe proporcionar.

 Assistiu às noites em que Phillipe, por ansiedade, mal conseguira adormecer. No entanto, das vezes em que perdeu o sono ou a fome, o garoto não se afetara. Parecia-lhe injusto, mas não o confrontava. Ter se calado, por vezes, foi a maior prova de respeito e consideração para com sua criação.

 Entre aqueles dias, efetuara um telefonema, desconfiado de que a aparência de tranquilidade omitisse algo que ainda não estava sob seu controle e que não satisfazia às suas expectativas. Quer onde procurasse, enxergava uma expressão proativa de Phillipe: respeitoso, dedicado, comedido e, ao mesmo tempo, sábio.

 Naquele dia, quando o encontrou sentado no banco, antes do retorno à escola, especulou que as dores de cabeça, por motivo do comportamento dele, retornariam com o mesmo vigor. Porém, enganara-se.

 Por três semanas, nenhum constrangimento foi causado. Não precisava mais insistir para que fizesse algo que fosse sua obrigação. Na maior parte dos dias, acordava e aprontava-se sem que sua atenção precisasse ser chamada.

 Ulisses reconhecia que Phillipe não estava satisfeito por completo e que existiam traumas que ainda não havia superado. Em contrapartida, esforçava-se voluntariamente em direção ao que lhe era importante. A amizade com Leônidas foi a âncora que o centrou em tais atividades. Nada lhe importava mais do que a presença do garoto, pois este reconduzia Phillipe à virtude. Isso sustentava ainda mais as desconfianças de que Denner influenciava seu mau comportamento.

 Preferia ter cautela quanto às observações de elogio, pois, por picardia e orgulho, Phillipe poderia aprontar algo pelo simples gosto de subverter, ou por medo de abraçar a família à qual pertencia. Pudera ceder maior confiança, pois eram escassos os motivos para mentir, muito menos havia razões para ser castigado. Ainda assim, Ulisses alegrava-se por perceber que Phillipe havia reencontrado a vontade de ir para a escola.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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