Cicatrizes

 Leônidas atirou a pedra que estava em sua mão no lago. A superfície refletiu aquele círculo perfeito, que se expandiu e se dissipou. A travessia pelo parque era o trajeto mais prático para chegar em casa. O sol já havia se posto, a brisa contra a face adocicava o odor de madeira e terra molhada. Ouviam-se alguns grilos e cigarras mato adentro. Por aquilo que aconteceu durante a tarde, motivados pela sensibilidade, trataram de assuntos os quais nunca tinham dito antes. O mais importante deles, a forma como se sentiam em relação ao outro.

 Uma pedra atirada no interior de alguém, capaz de estilhaçar o orgulho, era a égide para a reconstituição da essência, permitindo que saísse de sua dura casca. Imprevisivelmente, o acaso favoreceria os indivíduos com o desapontamento necessário para renascer. Nada era tão óbvio; os caminhos eram incertos. A todo tempo eram pressionados para que o melhor fosse subtraído deles.

 As atitudes dotadas de espontaneidade e compaixão não se encerram em si mesmas, mas promovem uma onda invisível de transformação, assim como o que observara na água. Phillipe questionava a validade de tais palavras, contudo, pela tonalidade da voz, apesar de tudo, Leônidas ainda acreditava nas pessoas. E não era preciso que fosse enunciada a intensidade do sofrimento. Entretanto, ele soube promover a diferença. Isso não era para com os outros, mas, acima de tudo, em consideração consigo mesmo. Impedir que as ações dos outros retirassem a própria confiança se convertia num ato de estima por si mesmo.

 Se não fosse pela interrupção do chamado, Phillipe, por instinto, teria desferido o golpe que daria vazão ao seu tormento. A benevolência lhe parecia estranha. O caminho do perdão lhe era desconhecido, talvez por isso fosse tão rígido consigo mesmo.

 Phillipe sabia que o modo como Leônidas se portou perante a humilhação era a marca da sua distinção enquanto indivíduo. Entendeu muito mais os ideais éticos quando fora desafiado. Não era, contudo, fácil para ele exercitar o esquecimento, apesar de ter se sentido um idiota por perceber que o ressentimento lhe causava maior dano.

 Na oportunidade de desarmarem suas defesas, ele admitiu que sem Leônidas ele teria fracassado. Seria insuportável conviver por tanto tempo naquela rotina sem tê-lo a seu alcance. Ele fez a diferença. Phillipe se arrependia dos julgamentos que fizera por ignorância, por não entender que Leônidas era mais do que sua aparência. Ele não pretendia deixar que ele se aproximasse, embora a insistência dele fizesse parecer a esperança mais avassaladora que conquistou em muito tempo.

 Alertara-o de que não deveria carregar o fardo de tomar para ele a responsabilidade de o conduzir à felicidade. Foi incisivo ao dizer, que se houvesse o mínimo de inteligência, se afastaria dele quanto antes, mas Phillipe não percebeu que as feridas que fez sobre sua pele estavam expostas.

 Então, antes de poder escondê-las, Leônidas, num solavanco, segurou o seu braço. Ele se calou abruptamente, por não saber o que aquilo significava. Seus olhos foram arregalados por assimilar que, naquele dia, na partição, Leônidas era a silhueta. Ele conhecia a intensidade de sua angústia e, apesar disso, não teve medo, pois a grandiosidade de seu espírito era maior.

 Leônidas o surpreendeu por mostrar as marcas sobre sua pele. Elas não foram feitas por ele próprio, mas por alguém que o discriminava. A comoção do ato fez com que palavras se tornassem desnecessárias, atiçadas pela profundidade do altruísmo.

 Ao término daquele dia, entenderam que não mais eram comuns, pois haviam ascendido um degrau de confiança. O reconhecimento do espaço em que poderiam dizer suas fragilidades fez com que elas se dissipassem de vez. Há muito tempo não se via um sorriso tão franco na cara de Phillipe.

 Quando chegou em casa, encontrou seu velho aturdido e impaciente pelo seu desaparecimento. Tranquilizou-o. Não lhe contou o que aconteceu, na percepção de que, a próprio custo solucionava seus problemas. Cumpriu com suas obrigações de forma harmoniosa. Acima das suspeitas, era capaz de conversar com Ulisses e fazer parecer que nada acontecera de interessante ao longo do dia.

 Antes de adormecer, as cortinas transpareciam a luminosidade que invadia o cômodo. Por suas mãos, sentia as cicatrizes em seu corpo. O significado por trás delas o fazia disposto a tentar mais uma vez, ainda que fosse difícil. Os sussurros estavam escondidos em algum lugar de sua mente, esperando o primeiro momento para abatê-lo. Contudo, ao término, percebeu ser forte para afugentar seus demônios.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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