Bartolomeu tenta se aproximar


Subiu as escadas em direção a seu quarto. Escutava os sons de sua mãe, que lavava as louças da última refeição. A submissão dele em relação ao homem permaneceu inalterada, ao passo de recordar do contexto anterior, na percepção de que ocorrera apenas a troca de cenário. Leônidas não buscou pela companhia dela para poder desabafar. De um lado, escutava parte de seu pensamento ecoando as palavras de Bartolomeu, que lhe diziam que ele sempre fora um empecilho para a felicidade dela. Noutra perspectiva, quanto lhe pressionava daquilo que deveria ser. Entre as paredes daquele labirinto, não poderia se salvar, à exceção de que aprendesse a aceitar as coisas que não poderia mudar. Mas algo o estava incomodando mais do que o comum.
Bartolomeu dormia no sofá; escutava o roncar dele se misturar com os sons emitidos pela televisão. Embriagara-se, outra vez, quebrando a promessa de que naquele teto isso não seria feito. Agora, o discurso se alterou. Ele não mais agia com agressividade com Rachel ou consigo, no entanto apresentava queixas do que se passou entre ele e Phillipe — o que o fazia se sentir mal por ter que escutar tais ofensas calado.
Leônidas não pretendia confrontá-lo. Incumbia-se do personagem que Bartolomeu quis que ele fosse, a tal modo que não o instigava a atentar contra si. Ele era consumido pelo pânico, mas isso nunca era demonstrado em suas feições. Por outro lado, sentia-se aliviado por não ser estabelecido entre eles a tensão que os colocava em posições opostas. Ter se rendido à amizade em relação a ele fez com que seus medos se tornassem menores, como se também conseguisse manipulá-lo em benefício próprio. Ele estava tentando se encontrar naquilo sem se perder.
A cartela de cigarro era deixada a seu alcance, como se Bartolomeu quisesse que ele tomasse um furtivamente. Quisera induzi-lo ao uso, sem precisar explicitar. Por precaução, Leônidas tomou alguns, atirando-os na lixeira do parque, para convencer o homem de que seguia a estratégia estipulada. Mas o cheiro daquilo não ficava impregnado em sua roupa, logo Bartolomeu não se sentiu totalmente convencido.
Leônidas encontrou uma revista adulta numa gaveta em seu quarto. Aquilo era indecente e invasivo, considerando o dilema de ser castigado por sua mãe, se contasse a ela, e desconsiderado pelo homem, caso lhe devolvesse. Leônidas manteve o silêncio, escondendo-a de volta entre os pertences de Bartolomeu de uma forma que apenas com muito custo conseguiria encontrá-la.
Todavia, seu comportamento não se alterou o suficiente para Bartolomeu enxergar nele a diferença. Ele quis fazer uma checagem para averiguar quanto à revisão de suas concepções em detrimento daquilo em que acreditava.
A conversa aconteceu sem a presença de Rachel, quando lhe perguntou se já havia se interessado por uma garota. Contara-lhe a respeito daquilo que fora seu primeiro beijo, apesar de não ser correspondido com nenhuma consideração. A instrução de Bartolomeu lhe pareceu inadequada e imprudente. Ele disse que deveria procurar por garotas mais novas, para ludibriá-las mais facilmente; deveria tomar o máximo de garotas que conseguisse para ser mais respeitado entre os rapazes.
Bartolomeu argumentou que era normal um homem fazer promessas que não pretendia cumprir, para que as garotas se mantivessem por perto. Ao mesmo tempo, reafirmou que mulheres são guiadas pelo sentimento, então, na conquista, era preciso adentrar a intimidade delas, as inseguranças que sentiam, fazendo-as alternar entre a alegria e a infelicidade. A dependência emocional seria inevitável.
Bartolomeu foi didático ao alegar que o homem deve ser mais esperto, tendo que se relacionar com uma mulher que estivesse disposta a se submeter a ele. Instruiu-lhe de que não deveria permitir que a mulher que tomasse como parceira trabalhasse, porque de tal modo a disposição dela para deixar a casa seria menor.
Uma boa esposa não questiona ao homem o que ele faz quando está fora de casa, foi o que ele disse. Ao ser carinhoso, ocasionalmente a convenceria de que poderia ser assim o tempo inteiro. Portanto, o rompimento do vínculo se tornaria mais difícil, na condição de que existia algo bom a ser zelado; um propósito perdido que poderia ser resgatado, para, enfim, viver um sonho.
Para consagrar a submissão dele às suas instruções, Bartolomeu permitiu com que sentasse à mesa junto dos amigos que fez para um carteado. Em tal ocasião, foi-lhe servida uma lata de cerveja, a qual tentou recusar, mas se sentiu pressionado. Manteve a postura enquanto suportou, porém logo que foram embora se iniciou a crise de vômito.
Escutou Rachel reclamar daquilo que Bartolomeu fez, todavia ele contra- argumentou, tentando reduzir a gravidade do que fez. Uma terrível dor de cabeça atingiu Leônidas, tendo ido dormir com febre e dores no corpo – provavelmente como sintomas de ansiedade.
Pela manhã, Bartolomeu lhe pediu desculpas, numa espécie de opinião que certificava que era normal o corpo precisar se adaptar ao álcool antes de poder ser consumido numa maior quantidade, tentando convencê-lo de que não deveria permitir que a experiência ruim o impedisse de experimentar por uma segunda vez, pois, quando ele estava naquela fase, o mesmo lhe acontecera.
Leônidas preferia esquecer o que se passou. Cada vez mais procurava encontrar desculpas para sair de casa, mesmo que isso significasse permanecer sozinho. O rosto de Phillipe era enxergado em desconhecidos na rua. Os dias eram de recesso, ele não conseguia imaginar o que o garoto estaria fazendo, porque não conseguia encontrá-lo em nenhuma parte. E, à noite, quando fechava seus olhos, em seus pensamentos era como se pudesse conversar com ele tudo aquilo que não podia dizer para ninguém. Phillipe o consolava. Era pequena a meada de esperança, mas consistente o suficiente para acreditar que algo bom poderia acontecer.