Aprendendo o significado do amor

 Com o braço esticado e um graveto nas mãos, revirou a chama, fazendo as brasas se erguerem pelo movimento. O som de grilos e cigarras perpassava seus ouvidos; o brilho prateado da lua caía sobre a copa das árvores, num céu sem nuvens, todavia repleto de estrelas. Uma estação de rádio ligada baixo, com pouco chiado. Deitou a cabeça sobre a dura bolsa, queria apreciar o silêncio. Poderoso e inevitável, exausto, fora interrompido o fluxo de pensamentos que lhe causavam constrangimento. Vazio de si, preenchia-se da natureza abundante.

 E de repente recordou-se de que pudera experienciar o dia sem que o nome de Leônidas viesse em sua mente. Agora, prestes a dormir, talvez não fizesse mal pensar um pouco a respeito, já que não o teria por perto para contar que atravessou uma trilha de pedras sobre um riacho, que encontrou pássaros alaranjados, que estaria acordado, há pouco, para ver o sol nascer. Nada precisava dizer a ninguém. Estava satisfeito com a forma como as coisas sucederam naquele dia, como se o sol e os campos fossem desenhados em perfeita forma para que seus pés andassem sobre eles.

 Ulisses se esforçava para disfarçar o cansaço, contudo permanecera entusiasmado. Há muito prometera acampar, sem que Phillipe levasse a sério. Ele decidiu subtrair uma semana de descanso para preencher a companhia nos dias de recesso escolar.

 Se por um lado Phillipe esperava que o tivesse feito apenas para vigiá-lo, enganou-se. Existia uma programação para ocuparem o tempo. Ulisses não era exatamente aquele que queria ter ao lado para uma tarefa de entretenimento, no entanto os olhos do coração o dissuadiram a permitir o rejuvenescimento do homem que adentrava seu mundo.

 Ele poderia ter dispensado, todavia não lhe parecia conveniente, pois, quando se ama, tais empecilhos não devem ser colocados. Poderia colocar uma manete nas mãos dele, com um pouco de perseverança, começava a competir com ele. Isso lhes rendeu boas gargalhadas.

 Convidara-o para que o ensinasse a cozinhar. Talvez essa fosse a décima tentativa, mas Ulisses nunca perdeu as esperanças de que Phillipe se aperfeiçoasse naquele campo. No entanto, precisava reconhecer que existiam desafios insuperáveis.

 Partilharam a coleção de gibis, e, por intuito do momento, Ulisses foi incentivado a correr por todas as bancas da cidade a fim de encontrar a edição que estava faltando na prateleira. Ele fazia comentários pontuais a respeito dos personagens, mas também o incentivou a ler os seus livros. Até que não era tão ruim quanto Phillipe acreditava. Sentia como se estivesse aprendendo alguma coisa pertinente em vez de permanecer em algo que já lhe era comum.

 Então, quando lhe foi sugerido acompanhá-lo ao cinema, torceu para que não fosse recomendado um filme sem cenas de ação. Com um pouco de custo e paciência, encontraram o termo em que se alegravam pela escolha. A generosidade foi tremenda quando cedeu ao pedido de comprar o item promocional, tendo enfrentado a imensa fila para a aquisição do item.

 Viagens extravagantes ou destinos paradisíacos não compuseram o roteiro. Ulisses pretendia economizar para reformar alguns cômodos da residência, bem como pretendia se organizar para suprir os custos da vida universitária de Phillipe. A maturidade, no entanto, os fez perceber que não era preciso de muito para fazer valer. E, naquela noite, quando os dias de descanso já sinalizavam o fim, brotara dentro de si um sentimento com o qual estava aprendendo a lidar.

 Sem discussões ou decepções, tudo estava bem. Era aquele o primeiro momento em que sentia de forma franca e profunda que Ulisses lhe era estimado e que felicitava por tê-lo escolhido. Phillipe ainda não se sentia digno de todas as coisas que recebera, entretanto, quando diante do espelho, enxergava um garoto diferente daquilo que já fora. O homem era parte da construção disso.

 Era extraordinário como próximo dele poderia ser livre. Dificilmente se portava assim perto de outro alguém. Ninguém conhecia seu senso de humor tão bem, ou quão divertido ele poderia ser. Pela muralha de suas feições, inspirava a parecer alguém cuja alegria era desprovida de potência.

 Phillipe escolhia para quem demonstrar a sua verdadeira essência, por isso aqueles que descobriam essa virtude dificilmente se dispunham a se afastar dele. O sorriso dele era radiante.

 As coisas que lhe pareciam custosas e difíceis tornavam-se fáceis sobre a mediação dele. Pelo próprio orgulho, temia que, no amanhã, uma severa briga os colocasse como adversários. De antemão, estabelecia os princípios para não mais o ofender. Queria fazer por merecer aquele lugar. A imperfeição das coisas fazia parte daquela história que a cada dia se orgulhava de construir.

 Mas, naquela noite, agradeceu-lhe em retraída forma, partindo de uma vontade espontânea. Pelas vezes em que cantaram as canções de que gostavam, mesmo desafinados; em honra da presença quando outros se fizeram inacessíveis; por não ter desistido desse sonho, apesar de os dias serem difíceis; por ter ensinado como se arma a barraca para o acampamento ou como se faz uma fogueira segura.

 O agradecimento pela confiança que lhe foi depositada, pelo esforço de incentivo, por nunca o deixar cair ou por ter tomado uma corajosa decisão, apesar de se entender como incapacitado e incompleto, em virtude de que um mal maior não acontecesse em sua vida. Reprimir todas as causas em poucas palavras era parte do seu coração de pedra, que estava começando a amolecer. Estava em paz, fora esse um dia feliz.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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