Amizade

 Phillipe subiu as escadas enquanto ouvia as vozes de Ulisses e Rachel se afastando. Ele procurava por Leônidas, que se ausentara da aula sem maiores explicações. Alguns dias se passaram desde que ingressaram nos estudos; contudo, a falta dele foi sentida. Acostumara-se à presença do amigo como uma espécie de escudo contra seus pensamentos intrusivos. Ele não fez questão de adquirir outras amizades. E, de acordo com a perspectiva dele, os outros não tinham motivos para se aproximar.

 Uma profunda distinção moldava a amizade. Se não fosse pelo contexto em que se conheceram, dificilmente se tornariam amigos, devido à falta de identificação. Todavia, esse era o modo que aprimorava a dinâmica. Nunca faltava assunto, apesar do combinado não explicitado que fizeram de não abordar sobre aquilo que se passou antes de se conhecerem.

 Amanheceu nublado. Entrara no carro, quando Ulisses anunciou que logo cedo Rachel lhe telefonou para dizer que Leônidas não compareceria aos estudos. Desmotivado, omitiu a intenção de permanecer em casa também. Se Leônidas estava afastado, nada o tiraria da apatia, as horas eram indiferentes.

 Tão silenciosa se fez a classe, que se escutavam os riscos do lápis sobre o papel. Os parceiros estavam compenetrados no estudo. Os trovões os assustaram na intensidade do lampejo. A tempestade se fez numa densa cortina, retirou os atrativos típicos do intervalo. Phillipe retirou o livro que reservou em sua bolsa como antídoto para o tédio. Acabou passando muito mais tempo na leitura do que pretendia. Ele se percebeu impaciente e, por essa razão, quis se debruçar sobre a mesa, fechar os olhos e esperar pelo horário em que Ulisses o buscaria.

 Entrou no carro munido dos pequenos sinais de sua impaciência. Todavia, antes que mencionasse, Ulisses o informou que iriam até a casa de Rachel. A visita seria breve, contudo deveria aproveitar o momento para colocar o garoto a par do conteúdo que perdeu. E, por intuito, ele foi tomado por uma estranha sensação.

 Leônidas esteve diversas vezes em sua casa, mas Phillipe nunca fora convidado para visitar a dele. A causa para a abrupta ausência já lhe era incomum. Phillipe não se sentia preparado para prestar algum apoio, caso fosse necessário. A fragilidade dele era algo que nunca previra. Seus olhos precisavam ver em que estado Leônidas se encontrava.

 Ele nunca se queixou desde que se conheceram. O tempo parecia pouco, mas Leônidas sabia muito mais sobre Phillipe do que qualquer outra pessoa. E, apesar de na maior parte do tempo isso não ser recíproco, ele se preocupou ao perceber que, enfim, seu amigo se tornara incapaz de sustentar o disfarce.

 Leônidas não era tão forte quanto pretendia parecer. Em algum momento, algo o atingiria em seu calcanhar de Aquiles. Phillipe sentiu-se intimado a começar uma investigação independente. Subiu as escadas acuado. Encontrou-o de pijamas. Seu semblante permanecia intacto, embora soubesse que tudo aquilo era um engodo. Sua presença reverberou na mudança imediata de temperamento.

 Por sinal, no tempo que teve, Leônidas leu todos os quadrinhos que lhe emprestara. Sentou-se, sem perguntar o que lhe acontecera. Conversaram brevemente, enquanto apresentava algumas das coisas que lhe pertenciam. A coleção de pares de tênis, que começou a construir. Leônidas odiava quando qualquer um deles se sujava. Num canto qualquer, aquilo lhe despertou a curiosidade. Deveria ter manipulado o objeto e o esquecido ali, antes de o esconder novamente, pois, quando tentou abordar o assunto, Leônidas se esquivou, por afirmar que sua prótese se quebrou no princípio do verão e que desde então usava as amparas.

 Quando Phillipe foi embora, ele estava convencido de que Leônidas havia se recuperado. Aquilo não era mais do que um susto provocado pela ansiedade. Leônidas permitira que seus pensamentos voassem desgovernados e, como consequência, acabou sendo traído por eles. Ele foi atingido por uma terrível febre na madrugada; a cama acordara ensopada de suor. Na hora vespertina, o garoto já estava bem; ligeiramente indisposto, todavia saudável.

 Phillipe jamais presumiu que alguém cuja personalidade fosse semelhante à de Leônidas pudesse sentir um rompante daqueles. A leitura superficial que fez, de um rapaz ingênuo, talvez não fosse compatível com o que Leônidas de fato era. Apesar de todo o tempo que partilharam, Phillipe ainda sabia muito pouco a respeito do garoto.

 Apesar de tudo, pelo mérito da ocasião, tomou-a como meio para a reflexão. Ter alguém por perto poderia ser algo agradável; contudo, prometera a si mesmo não mais construir vínculos. Existia muito orgulho na soberba ao se recolher para longe dos outros. E, por um lado, ter posto à prova que era capaz de sobreviver sozinho era algo bom. Phillipe foi dormir naquela noite com muitas questões inacabadas.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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