A forma da esperança

 Ulisses espreitou-se contra a parede para espiar a revelação que estava prestes a acontecer. Phillipe cobriu a tábua da oficina com um tecido para ocultar o agrado. Ele era quem mais se divertia com toda aquela trama. Leônidas, porventura, mantivera-se cético o tempo inteiro. Perdera as esperanças de que se encontrariam, quando Phillipe telefonou, insistindo para que fosse à sua casa. Apesar da vontade de declinar o convite, a ênfase do argumento de que era importante o fez se mobilizar.

 Seja o que fosse, a oficina de bicicletas foi o lugar para onde o conduziu. O item por debaixo de um pano. A risada denunciava que era algo incomum. Leônidas estava cansado demais para prolongar aquela brincadeira. Desconhecia, Phillipe, o desgaste que sofreu pela tarde solitário. Ele estava ficando impaciente com toda aquela mobilização. Estendeu a mão e, de uma só vez, arrancou o tecido.

 Demorou alguns segundos até que entendesse a dimensão do ato. Phillipe precisou segurá-lo para que não caísse. Leônidas quase perdeu o equilíbrio por emoção. Seu corpo perdeu a cor, tremia descontroladamente. As lágrimas percorriam seu rosto, sem que as percebesse ou as contivesse. Tamanha crueldade fora empregada ao tomá-lo desprevenido, no cerne de seus sentimentos, arrebatado por um tremendo entusiasmo, alívio… Eram escassos os adjetivos que fizessem justiça ao momento.

 Por um lapso, entendeu. Fora pelas mãos de Phillipe. Fora ele quem fizera aquilo. Não havia do que duvidar. Despido de formalidades, abraçou-o, agradecendo repetidamente, pressionando o rosto contra o dele com toda a força de seus sentimentos. Porque nunca, em toda a sua vida, alguém fizera algo tão grandioso por ele. Sentia-se sufocado, porque não entendia como alguém poderia se engasgar com tanta felicidade. Aquilo era muito mais do que parecia significar. Era como se a vida, enfim, compusesse a justiça que sempre desejou. Então, ao garoto cujas lágrimas haviam se secado cedo, enfim fora permitido romper a barreira dos medos mais inconscientes por se compadecer.

 A prótese que havia se quebrado. Ele pretendia tentar submeter o modelo a conserto, todavia não encontrou quem fizesse o serviço. Não lhe ocorreu a ideia de que Phillipe poderia se prestar a essa função. Ele fez as alterações de modo a interpretar aquilo enquanto um elemento integrante de sua essência. Ele captou os pedaços que carregava em seu espírito para se converter em matéria.

 A custo de muito esforço, obteve aquilo. As economias de sua mãe foram gastas nesse projeto, que era, acima de tudo, a realização de um profundo desejo. Ele possuiu outros modelos antes daquele, mas o crescimento de seu corpo as tornou inutilizadas. Ele não contou a Phillipe aquela história para poupá-lo da dor que isso poderia lhe provocar. O término de uma escura noite, uma risca de luz imparável a incendiar-se. Fez parecer, naquele momento, que os sonhos podiam se tornar realidade.

 Na idade em que se encontravam, conheciam da vida o suficiente para reconhecerem os temores, persuadidos pelas desventuras, quando não agraciados pela sorte. Quer fosse aquilo que queriam ser ou das compensações que deveriam ser obtidas para ter o verdadeiro descanso, ter em que acreditar adquirira o aspecto de proteção contra a corrupção das adversidades.

 Quando a prótese foi danificada, Rachel temeu que Leônidas morreria de desgosto. Ulisses os interrompeu. Perceberam que o homem também se emocionara com a descoberta. Em dada ocasião, ele convidou Leônidas para permanecer para o jantar. No tempo que restou, o garoto julgou ser justo contar a Phillipe como o transtorno o acometeu.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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