A dor que não se vê

 Os olhos de Leônidas fecharam-se; rasgada, em seu peito, a dor. As amparas estalaram com a queda, reverberadas pelo feroz instinto. O arrependimento foi imediato, suas feições denunciavam isso. Seus punhos, ainda cerrados pelo rancor, desvaneceram-se. Carregava o peso da fúria entre os dedos, mas não era Leônidas quem fizera por merecer a investida.

 Phillipe não o perdoaria. Leônidas estava assustado demais para se mover. Num rápido movimento, tomou Aroldo pela camisa e o pressionou contra uma das prateleiras, fazendo alguns livros caírem com o impacto. Nos olhos dele, a profusão de uma besta. Confuso, aturdido, ergueu o pulso, estava pronto para desferir o golpe. Mas, antes que o acertasse, Leônidas chamou por seu nome.

 No perímetro de seu olhar, vagamente o espiou, com dificuldades para se levantar. Desvaneceu a força de seus dedos. Indiferente ao descontentamento, implicaria muito mais a assistência a seu melhor amigo. Leônidas parecia não se importar com o que acontecera; pelo contrário, não queria que Phillipe fizesse justiça naquela ocasião.

 A representação do chamado desvaneceu o ímpeto. Soltou Aroldo, que aproveitou a deixa para escapar e correu covardemente.

 Phillipe percebia que aquilo era muito mais do que a aparência de Leônidas tentava exprimir. De alguma forma, parecia que não era a primeira vez que alguém o tratava daquela forma. A perspectiva de aceitar sem se manifestar intrigava: seria isso um defeito ou um símbolo de espirituosidade?

 Phillipe não sabia distinguir, diferente de Leônidas, que estava apto a continuar. Ele não conhecia Aroldo, mas, de alguma forma, sentiu que entendia o que se passava dentro dele. Ele nunca fora efusivo em suas manifestações de fúria, apesar de considerar esse excesso um pecado. De qualquer modo, Aroldo não teria ido longe o suficiente para não poder ser perdoado.

 Pôde sentir a dor de Aroldo. Respeitava-a, compreendia-a, sem tornar aquele descontentamento definitivo. Assim era seu coração: afastado da essência, qualquer um estava disposto ao erro. Mas, talvez, o legado que isso deixou referia-se muito mais ao seu lugar no mundo, pois, apesar de poder esquecer, carregaria consigo a culpa por acreditar não ter sido bom o suficiente.

 Recolhidos os pertences, partiram para casa sem encontrar Aroldo pelos corredores. Ele se escondera numa das partições do banheiro. Abatido, inclinou a cabeça e a pressionou contra a parede. Desconhecia-se. Era curioso saber que, nos últimos meses, uma lágrima pairava por trás de seus olhos sem que ele a deixasse escapar. Por demérito ou acaso, não foi pela espada da tristeza que desvanecera, mas, sobretudo, pela crueldade de suas ações.

 Caído no ostracismo, precisava encontrar a alavanca para se transformar. Eles não foram capazes de ver — quer fosse seu pai, Calebe ou aqueles da biblioteca.

 Com os olhos doloridos de lágrimas, cansado, levantou-se. Partiu-se a máscara atrás da qual se escondeu através das atitudes imaturas e precipitadas. Ele não poderia mais se esconder em irresponsabilidades. Aquele fracasso ardia como fogo. Mas, como poder, uma chama seria capaz de reverter o transtorno. Ninguém o faria por si, teria que ser pelo seu próprio empenho.

 Sua rebeldia, na tentativa de atrair atenção, resultou apenas em prejuízo. A dor provocada a Leônidas não dissipou a angústia que carregava, tampouco o fez admitir sua incapacidade de governar a si próprio. Apesar disso, os outros garotos sempre impediam que tais ações fossem convertidas em castigos.

 Não parecia inteligente adotar atitudes que pudessem ser convertidas em críticas. Ainda que tentasse culpar alguém, seguia desacreditado. Assumir a responsabilidade sobre sua existência era um projeto a ser realizado afastado daqueles que poderiam perturbar o seu equilíbrio.

 Aroldo absorveu tudo ao seu redor, transformando-se no pior que existia. Precisava espantar tais transtornos para retomar aquilo que lhe era importante. Sua identidade não seria definida pelo fracasso.

 Conhecia o gosto da vitória, era um campeão por nascimento. Lembrava-se do tempo em que fora um herói, quando seus parceiros o seguravam e o jogavam para cima em comemoração. Esse pedaço dele ainda estava lá. Mas, enfraquecido, permitiu-se desistir. Regenerado, secou as lágrimas. Ele precisava se desculpar, porém não sabia como.

A História do Meu Melhor Amigo

Uma jornada sobre amizade, superação e o poder de pertencer.

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